Sessão Francesa.

O cinema francês, lido do Brasil.

Memória · 2011

A programação de 2011, cidade por cidade: de Macaé a João Pessoa, o mapa do festival

Em junho de 2011, uma página deste endereço pedia ao visitante que selecionasse uma cidade entre 22. A Sessão Francesa reconstrói esse mapa a partir das capturas do site original e do release oficial da edição — sala por sala.

Publicado em 14 de agosto de 2026 · Sessão Francesa

Ilustração em guache de mãos abrindo um folheto de programação impresso sobre um mapa estilizado do Brasil, em tons de papel, vinho e dourado
O folheto de programação por cidade, artefato central da edição de 2011. Ilustração: Sessão Francesa.

Quem abrisse festivalcinefrances.com em junho de 2011 e clicasse em "programação" encontrava uma página quase vazia, com uma única pergunta no centro: selecione uma cidade. O menu que se abria listava, em ordem alfabética, de Belém a Vitória, os 22 destinos daquela edição do Festival Varilux de Cinema Francês. Era um gesto pequeno de interface — um dropdown, tecnologia corriqueira de 2011 — mas o que ele escondia era, na época, uma novidade absoluta no país: um festival de cinema acontecendo ao mesmo tempo em 22 cidades de 17 estados, de Macaé a João Pessoa, de São Luís a Florianópolis.

Essa página não existe mais. O site original saiu do ar, o domínio mudou de mãos, e hoje a programação de 2011 só sobrevive em capturas do Wayback Machine e em um PDF de release arquivado. É a partir desses documentos que a Sessão Francesa remonta aqui o mapa completo daquela edição: cada cidade, cada sala, e a engenharia — digital e impressa — que fazia o conjunto funcionar.

A página que pedia uma cidade

A captura de 24 de agosto de 2011 preserva a página de programação como ela era. O texto de abertura anunciava os 10 filmes inéditos da mostra, as sessões com presença de artistas e debate em São Paulo e no Rio de Janeiro entre 8 e 10 de junho, e a mostra paralela em homenagem a Sandrine Bonnaire. Abaixo, o seletor de cidades: Belém, Belo Horizonte, Brasília, Campinas, Campos, Curitiba, Florianópolis, Fortaleza, Goiânia, João Pessoa, Juiz de Fora, Macaé, Maceió, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, Santos, São Luís, São Paulo e Vitória.

Por trás da ordem alfabética do menu, o código da página revela outra ordem, a do banco de dados: cada cidade tinha um número, de id=1 (Rio de Janeiro) a id=22 (Belém). A numeração segue uma lógica aproximadamente regional — Sudeste e Sul na frente (São Paulo em 2, Santos em 5, Macaé em 6, Campos em 7, Curitiba em 10), Centro-Oeste e Nordeste na sequência, o Norte por último —, com uma exceção logo no início: Recife, veterana da edição de 2010, aparece já no número 3. Cada número abria a agenda daquela cidade: uma lista dia a dia, com cabeçalhos de data no formato "24.JUN", horário, filme e sala.

Três dessas agendas municipais de 2011 chegaram ao arquivo: a do Rio de Janeiro, capturada em 13 de junho, em pleno festival; a de São Paulo; e a de Belo Horizonte, capturada em 28 de junho, durante a semana mineira. A de Belo Horizonte mostra a mecânica em sua forma mais simples — sessões às 15h, 17h, 19h e 21h no Centro Cultural Oi Futuro, os dez filmes da mostra se revezando ao longo de uma semana. As agendas das outras 19 cidades se perderam; é o release oficial da edição, um PDF de oito páginas que sobreviveu no arquivo, que permite remontar o resto do mapa.

Como um festival cabia em 22 cidades ao mesmo tempo

O salto era grande: a primeira edição sob o nome Varilux, em junho de 2010, tinha ocupado 9 capitais e somado mais de 25.000 espectadores. Um ano depois, o festival saltava de 9 para 22 praças e, segundo a página institucional arquivada, se apresentava como o primeiro festival de cinema com tamanha abrangência no Brasil. A autodescrição, ao menos, correspondia ao desenho da edição: o mesmo conjunto de filmes inéditos em cartaz, na mesma semana, do Pará ao Rio Grande do Sul.

A viabilidade técnica tinha nome: Auwe Digital, parceira encarregada do encoding, da legendagem e da exibição digital dos longas em todas as salas. Em 2011, a projeção digital ainda dividia espaço com o 35 mm no circuito brasileiro — a própria Retrospectiva Bonnaire, na mesma edição, circulou majoritariamente em cópias 35 mm —, e era exatamente essa transição que tornava possível multiplicar um festival sem multiplicar cópias em película, cada uma cara, pesada e única. Não por acaso, o encontro profissional da edição, realizado em 10 de junho no Hotel Sofitel de Copacabana, discutia "Cinema digital e diversidade cultural", com representantes da Unifrance, do CNC e do site AlloCiné debatendo com profissionais brasileiros.

A estrutura de exibição também explica a cara do mapa. O release lista 28 endereços parceiros da mostra principal — de fundações culturais a multiplexes de shopping — enquanto a página institucional falava em 30 salas; a diferença provavelmente se explica pelos espaços que receberam a mostra paralela dedicada a Sandrine Bonnaire, vários deles distintos do circuito principal. Os ingressos não tinham preço único: cada sala praticava seus próprios valores, como o release fazia questão de avisar. O site original mantinha inclusive uma página "salas" só para o circuito — este artigo herda também a função daquela página.

Os folhetos em PDF — e o que se perdeu

No alto de cada agenda municipal havia um botão: "baixe aqui a programação da sua cidade em PDF". Para cada uma das 22 cidades, a produção gerava um folheto imprimível — o programa de bolso que o espectador levava ao cinema. Dois exemplares sobreviveram por inteiro no arquivo: o folheto de Brasília, capturado pelo Wayback Machine em 26 de junho de 2011, uma página com a grade completa da cidade, e o de São Paulo, capturado em julho de 2012, quando as páginas antigas do site ainda respondiam.

Outro, o de Campos dos Goytacazes, teve destino mais curioso: quando o Wayback Machine tentou capturar o endereço do PDF (programa_campos_varilux.tm29gf.pdf), em outubro de 2023 — doze anos depois do festival —, o domínio já estava em outras mãos e a resposta foi um erro 404. O folheto de Campos se perdeu; o que ele continha, porém, é reconstituível: a grade de sessões do Cinemagic Campos, no Shopping Avenida 28, com os dez filmes da mostra entre 8 e 16 de junho de 2011. Quem chegar aqui procurando aquele PDF encontra, na seção de Campos abaixo, o registro do que ele documentava.

Esse detalhe diz algo sobre memória digital: o site era o índice, mas o artefato que circulava de mão em mão era o papel. Dos 22 folhetos, o arquivo guardou dois; das 22 agendas em HTML, três. Todo o resto precisa ser triangulado — e é o que as seções seguintes fazem, cruzando o seletor de cidades arquivado com a lista de cinemas parceiros do release.


O mapa: Sudeste

Nove das 22 cidades ficavam no Sudeste — incluindo as duas capitais que abriam o festival e, novidade em relação a 2010, quando a mostra ficara restrita às capitais, quatro cidades do interior e do litoral fluminense e paulista.

Rio de Janeiro

Capital com maior estrutura da edição: cinco endereços — Cine10 Sulacap, Estação SESC Ipanema, Estação SESC Barra Point, Instituto Moreira Salles (Gávea) e Unibanco Arteplex Botafogo. A abertura carioca, em 9 de junho, contou com a delegação artística francesa; no sábado, 11, o Forte do Leme recebeu sessões ao ar livre com a animação Um Gato em Paris e o clássico franco-brasileiro Orfeu Negro, de Marcel Camus, Palma de Ouro em 1959 e Oscar de melhor filme estrangeiro em 1960.

São Paulo

Três salas de perfil de arte: o CineSESC da Rua Augusta, a Reserva Cultural da Avenida Paulista e o Unibanco Arteplex Frei Caneca. Foi em São Paulo que o festival abriu, em 8 de junho, com sessões seguidas de debate — o release anunciava as presenças de Catherine Deneuve (por Potiche), Audrey Tautou (por Uma Doce Mentira — segundo o release, sua primeira vinda ao Brasil) e Sandrine Bonnaire, homenageada da edição.

Campinas

Sessões no Topázio Cinemas do Shopping Parque Prado. Campinas estreava no mapa do festival junto com o restante do interior — em 2010, a mostra tinha ficado restrita às capitais.

Santos

O Espaço Unibanco Miramar, no Miramar Shopping do Gonzaga, colocou a baixada santista no circuito — a poucos quarteirões da praia, os dez inéditos franceses da semana.

Macaé

A cidade do petróleo do norte fluminense entrou no festival pelo Cinemagic Macaé, no Shopping Plaza Macaé (Granja dos Cavaleiros). No banco de dados do site, Macaé era a cidade id=6 — antes, na numeração, de capitais como Salvador e Fortaleza. As duas cidades do interior fluminense no mapa, Macaé e Campos, tinham em comum a mesma rede exibidora: a Cinemagic.

Campos dos Goytacazes

No seletor original, apenas "Campos", id=7. As sessões aconteceram no Cinemagic Campos, no Shopping Avenida 28 (Avenida 28 de Março, 574), entre 8 e 16 de junho de 2011, com os dez filmes da mostra principal — de Potiche a Vênus Negra, de Um Gato em Paris a Xeque Mate. Campos ganhou, como toda cidade da edição, seu folheto de programação em PDF; é o exemplar que o arquivo não conseguiu preservar (ver seção acima). Para o público do norte fluminense, eram os mesmos dez inéditos em cartaz no Rio e em São Paulo, na mesma semana de junho.

Juiz de Fora

O Espaço Alameda de Cinema, no Alameda Shopping (bairro São Mateus), representou a Zona da Mata mineira — a segunda cidade de Minas no mapa, ao lado da capital.

Belo Horizonte

Caso especial no calendário: BH recebeu o festival depois de todo mundo, de 24 a 30 de junho, no Centro Cultural Oi Futuro da Avenida Afonso Pena. É a única cidade cuja agenda de 2011 sobreviveu em captura, com suas quatro sessões diárias (15h, 17h, 19h e 21h) — o registro mais granular que existe do funcionamento do festival em uma cidade.

Vitória

O Cine Jardins, no Shopping Jardins (Jardim da Penha), completou o Sudeste levando a mostra ao Espírito Santo — estado que raramente entrava nos circuitos de festival da época.

O mapa: Sul

Porto Alegre

Sessões no Unibanco Arteplex Bourbon (Rua Túlio de Rose, Passo da Areia). Depois do festival, a capital gaúcha ainda recebeu a Retrospectiva Bonnaire no Santander Cultural — uma das seis paradas da itinerância.

Florianópolis

A escolha catarinense fugiu do shopping: o Paradigma Cine Arte, sala independente dedicada ao cinema de arte, na rodovia José Carlos Daux, em Santo Antônio de Lisboa, ficou responsável pela semana francesa da ilha.

Curitiba

No coração do Batel, o Unibanco Arteplex Crystal, dentro do Shopping Crystal (Rua Comendador Araújo, 731), foi a casa curitibana do festival — id=10 no seletor original. Curitiba era das praças mais fortes do circuito de arte no país, e a presença do Arteplex (rede que também servia o festival em Porto Alegre, Botafogo, Frei Caneca e Salvador) mostra o quanto a edição de 2011 se apoiou nesse circuito.

O mapa: Centro-Oeste

Brasília

O Arcoiris Liberty, no Liberty Mall, exibiu a mostra na capital federal. Brasília tem uma distinção involuntária nesta história: seu folheto de programação em PDF é o único dos 22 que o Wayback Machine preservou por inteiro — a grade completa da cidade, capturada em 26 de junho de 2011 (link nas fontes). Depois do festival, o Espaço Le Corbusier da Embaixada da França recebeu a Retrospectiva Bonnaire.

Goiânia

Sessões no Lumière Bougainville, no Shopping Bougainville do Setor Marista. Na itinerância posterior da retrospectiva, a cidade participou com uma sala histórica: o Cine Goiânia Ouro.

O mapa: Nordeste

Sete capitais nordestinas entraram no mapa de 2011 — em 2010, eram apenas três (Recife, Salvador e Fortaleza). É a região onde a expansão foi mais visível.

Recife

A sala pernambucana não era um multiplex, e sim a Fundação Joaquim Nabuco, no Derby — instituição pública de pesquisa que também receberia, na sequência, a Retrospectiva Bonnaire. Recife era veterana: estava no circuito desde a edição de 2010.

Salvador

O Espaço Unibanco de Cinema Glauber Rocha, na Praça Castro Alves, exibiu a mostra principal; o Teatro Molière da Aliança Francesa recebeu depois a retrospectiva — dupla baiana que juntava o novo circuito de arte e a rede franco-brasileira histórica.

Fortaleza

Caso especial número um do calendário: o festival chegou ao Espaço Unibanco Dragão do Mar, na Praia de Iracema, apenas em 16 de junho, quando as outras cidades encerravam, e seguiu até o dia 23. Uma mostra em dois tempos, desenhada para não abrir mão de nenhuma praça.

Maceió

O Cine SESI Pajuçara, de frente para a orla (Avenida Dr. Antônio Gouveia), pôs Alagoas no circuito do festival — mais uma praça fora do mapa de 2010.

João Pessoa

A capital paraibana — id=18 no seletor — recebeu a mostra no Cinespaço MAG, dentro do Mag Shopping (Avenida Governador Flávio Ribeiro Coutinho, Jardim Oceania). Ausente do mapa de 2010, a cidade entrava no circuito com a mostra completa — os mesmos dez inéditos franceses de Rio e São Paulo, a poucas quadras da orla.

Natal

O Moviecom Praia Shopping, na avenida Engenheiro Roberto Freire (Capim Macio), pôs a capital potiguar no mapa — mais uma estreia de 2011.

São Luís

No Maranhão, a sessão francesa aconteceu no Cinesystem Rio Anil, no Rio Anil Shopping (Turu) — a rede Cinesystem, aliás, participa do festival até hoje, quinze anos depois.

O mapa: Norte

Belém

Última cidade da numeração (id=22) e única representante da região Norte: o Moviecom Castanheira, no Shopping Castanheira da BR-316. Com Belém, o festival podia dizer com precisão cartográfica que ia "do Pará ao Rio Grande do Sul" — e foi o primeiro passo de uma presença amazônica que só cresceria nas edições seguintes.


O circuito paralelo da Retrospectiva Bonnaire

Sobreposto ao mapa das 22 cidades, havia um segundo mapa, menor e itinerante. A retrospectiva de oito filmes de Sandrine Bonnaire — iniciativa do Institut Français e da Embaixada da França, em cópias em sua maioria novas, de 35 mm — estreou dentro do festival, de 8 a 16 de junho, no Instituto Moreira Salles do Rio e no CineSESC de São Paulo, e depois viajou para seis cidades: Porto Alegre (Santander Cultural), Belo Horizonte (Cine Humberto Mauro), Salvador (Teatro Molière), Recife (Fundação Joaquim Nabuco), Brasília (Espaço Le Corbusier) e Goiânia (Cine Goiânia Ouro). O Brasil foi o primeiro país a receber a mostra, que dali seguiria pelo mundo. A história completa dessa homenagem — e de tudo o mais que a edição de 2011 trouxe — está no nosso retrato completo da edição de 2011.

O que o mapa de 2011 diz em 2026

Ao final daquele junho, a página inicial do site agradecia a um público de mais de 45.000 pessoas — quase o dobro do ano anterior. O modelo testado em 2011 — projeção digital centralizada, folheto por cidade, salas de arte e multiplexes lado a lado, ingressos a preço de cada casa — virou o molde das edições seguintes. O festival só cresceu a partir dele: hoje, rebatizado Festival de Cinema Francês do Brasil, chega a cerca de 60 cidades, segundo a Wikipédia, e tem site oficial em festivalcinefrances.com.br, onde as datas e cidades de cada edição são anunciadas.

Dos 22 endereços de 2011, vários mudaram de nome ou fecharam as portas — os Unibanco Arteplex, por exemplo, trocaram de bandeira poucos anos depois. O mapa que esta página remonta é, portanto, um instantâneo: o Brasil dos cinemas de shopping e das fundações culturais de 2011, atravessado por uma semana de cinema francês. A trajetória inteira do festival, de 2008 até hoje, está na nossa linha do tempo completa; os vinte filmes que as duas primeiras edições exibiram — e onde vê-los agora — estão em as seleções de 2010 e 2011; e quem quiser saber como a edição atual funciona encontra o nosso guia independente do festival em 2026.

Fontes

Todas as afirmações históricas desta página vêm dos documentos abaixo, preservados pelo Wayback Machine: