A edição de 2011: 22 cidades, 10 filmes inéditos e uma retrospectiva Sandrine Bonnaire
Em junho de 2011, o festival de cinema francês saltou de 9 para 22 cidades e levou aos brasileiros, além de dez inéditos, uma mostra inteira dedicada a uma das grandes atrizes da França. Esta é a reconstrução documentada daquela edição — a que morou neste endereço.
Publicado em 14 de agosto de 2026 · Sessão Francesa
Na noite de 8 de junho de 2011, vinte cidades brasileiras acenderam projetores ao mesmo tempo para os mesmos filmes franceses. De Belém a Porto Alegre, de Macaé a João Pessoa, salas muito diferentes entre si — multiplex de shopping, cineclube de instituto cultural, cinema de rua — exibiram, em pré-estreia, uma seleção que a França ainda considerava sua safra mais recente. Duas cidades entrariam na dança logo depois: Fortaleza, de 16 a 23 de junho, e Belo Horizonte, de 24 a 30.
Era apenas a segunda edição do Festival Varilux de Cinema Francês, e a aposta tinha dobrado de tamanho mais de uma vez: da estreia em 2010, com 9 capitais, o evento saltou para 22 cidades em 17 estados. O site que anunciava tudo isso morava exatamente aqui, em festivalcinefrances.com — e é a partir das capturas daquele site no Wayback Machine, e do release oficial de 2011 que ficou arquivado no mesmo servidor, que a Sessão Francesa reconstrói esta edição.
Nenhuma outra fonte em português reúne hoje o que aquelas páginas registravam: a lista completa de cidades, os dez inéditos com seus convidados, a agenda sessão por sessão da mostra Sandrine Bonnaire e até o cinema ao ar livre no Forte do Leme, com vista para a praia de Copacabana. É essa memória que este artigo devolve à superfície.
O salto de 2011 em números
Os números vêm do próprio festival. A página institucional arquivada em agosto de 2011 descreve a edição como a primeira no Brasil a acontecer simultaneamente em tantas cidades: 22 municípios, 17 estados, 30 salas. E a home do site, na captura de 21 de agosto de 2011, agradecia ao público — mais de 45 mil pessoas haviam passado pelas sessões. Para comparação: a edição de estreia, um ano antes, havia somado cerca de 25 mil espectadores em 9 capitais.
A lista de cidades, preservada no seletor "programação" do site arquivado, mostra o desenho da expansão: Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Campinas, Santos, Macaé, Campos dos Goytacazes, Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Belo Horizonte, Juiz de Fora, Vitória, Brasília, Goiânia, Salvador, Maceió, João Pessoa, Natal, Fortaleza, São Luís e Belém. Não eram só capitais: pela primeira vez, cidades médias do interior fluminense e paulista — Macaé, Campos, Campinas, Santos, Juiz de Fora — recebiam a mesma programação, no mesmo período, que Rio e São Paulo. A Sessão Francesa reconstruiu esse mapa, cidade por cidade e sala por sala, em um artigo próprio.
Havia um truque técnico por trás da simultaneidade. Em 2011, boa parte das salas brasileiras ainda operava com projeção 35 mm, e fazer o mesmo filme inédito estrear em 30 salas exigiria dezenas de cópias caras. O festival contornou isso com projeção e legendagem digitais, a cargo da empresa Auwe Digital, segundo o release oficial de 2011 — os filmes viajavam como arquivos, não como latas. É um detalhe que explica muito do que o festival se tornaria depois: a escala nacional era, antes de tudo, uma proeza logística.
Os dez filmes inéditos
A seleção de 2011 tinha dez longas então inéditos no circuito brasileiro, a maioria já com distribuidor local contratado — o festival funcionava como vitrine de lançamento. A lista completa está na captura de agosto de 2011 da página de filmes, e as fichas individuais arquivadas informam direção, elenco e até quais artistas viriam ao Brasil:
- Potiche: Esposa Troféu (Potiche), de François Ozon — comédia com Catherine Deneuve e Gérard Depardieu, ambientada numa fábrica de guarda-chuvas em 1977. A ficha arquivada anunciava Deneuve como convidada do festival.
- Vênus Negra (Vénus noire), de Abdellatif Kechiche — drama histórico sobre Saartjie Baartman, com a atriz Yahima Torres anunciada como convidada.
- Um Gato em Paris (Une vie de chat), de Alain Gagnol e Jean-Loup Felicioli — animação sobre um gato de vida dupla nos telhados de Paris, depois indicada ao Oscar de melhor animação.
- Uma Doce Mentira (De vrais mensonges), de Pierre Salvadori — comédia romântica com Audrey Tautou, também anunciada como convidada da edição.
- Os Nomes do Amor (Le Nom des gens), de Michel Leclerc — comédia política que rendeu a Sara Forestier o César de melhor atriz em 2011.
- Copacabana, de Marc Fitoussi — comédia dramática com Isabelle Huppert e sua filha, Lolita Chammah, contracenando como mãe e filha.
- Xeque Mate (Joueuse), de Caroline Bottaro — com Sandrine Bonnaire e Kevin Kline; fazia ponte com a retrospectiva da atriz, e diretora e protagonista constavam como convidadas.
- Simon Werner Desapareceu (Simon Werner a disparu…), de Fabrice Gobert — thriller adolescente nos arredores de Paris.
- Lobo (Loup), de Nicolas Vanier — aventura ambientada entre criadores de renas da Sibéria Oriental.
- O Pai dos Meus Filhos (Le Père de mes enfants), de Mia Hansen-Løve — drama sobre um produtor de cinema, premiado em Cannes na mostra Un Certain Regard.
Vista de 2026, a lista impressiona pela pontaria. Ozon, Kechiche e Hansen-Løve seguiram entre os nomes centrais do cinema francês; Um Gato em Paris virou clássico de sessões infantis de cineclube. E o formato — inéditos com distribuidor, artistas presentes para debates — é exatamente o que o festival pratica até hoje. As duas seleções históricas deste endereço, a de 2010 e a de 2011, estão comentadas filme a filme, com a disponibilidade atual de cada um, em Os 20 filmes que abriram o festival.
A retrospectiva Sandrine Bonnaire
O gesto mais ambicioso de 2011, porém, não estava nos inéditos. A edição abrigou uma mostra de oito longas dedicada a Sandrine Bonnaire — e o site arquivado permite reconstituí-la quase por inteiro. Segundo a página da mostra capturada em junho de 2011, eram sete ficções e um documentário dirigido pela própria atriz, a maior parte em cópias 35 mm legendadas em português. A realização era do Institut Français, com a Embaixada da França no Brasil — e o Brasil foi o primeiro país a receber a mostra, antes de ela circular pelo mundo.
Bonnaire, então com 44 anos, era uma escolha que resumia três décadas de cinema francês. Revelada aos 16 por Maurice Pialat em Aos Nossos Amores (1983), que lhe deu o César de atriz revelação, ela ganhou o César de melhor atriz pelo papel da andarilha Mona em Sem Teto Nem Lei (1985), de Agnès Varda, e dividiu com Isabelle Huppert a Copa Volpi de melhor atriz em Veneza por Mulheres Diabólicas (La Cérémonie, 1995), de Claude Chabrol. Foi ainda a protagonista de Sob o Sol de Satã, de Pialat, Palma de Ouro em Cannes em 1987.
Os oito títulos, conforme a lista arquivada da mostra: Aos Nossos Amores (Pialat, 1983), A Puritana (Jacques Doillon, 1986), Sem Teto Nem Lei (Varda, 1985), Mulheres Diabólicas (Chabrol, 1995), Senhorita (Philippe Lioret, 2001), Poderá Ser Amor? (Pierre Jolivet, 2007), Xeque Mate (Caroline Bottaro, 2009) e o documentário O Nome Dela é Sabine (2007), em que Bonnaire filma, ao longo de 25 anos, a vida da irmã autista — trabalho premiado na Quinzena dos Realizadores de Cannes.
A mostra estreou dentro do festival, no Rio de Janeiro e em São Paulo, com a presença da atriz. No Instituto Moreira Salles do Rio, a agenda arquivada registra sessões de 10 a 15 de junho, abertas com A Puritana, O Nome Dela é Sabine e um encontro com Sandrine Bonnaire na noite de estreia. No CineSESC de São Paulo, as sessões documentadas vão de 8 a 12 de junho — começando por um bate-papo com a atriz sobre o documentário, seguido da exibição. Depois das duas capitais, a mostra partiu em itinerância por seis cidades, ao longo de quase quatro meses:
| Cidade | Espaço | Período |
|---|---|---|
| Rio de Janeiro | Instituto Moreira Salles | 10 a 15 de junho |
| São Paulo | CineSESC | 8 a 12 de junho |
| Porto Alegre | Santander Cultural | 23 a 28 de junho |
| Belo Horizonte | Cine Humberto Mauro (Fundação Clóvis Salgado) | 7 a 14 de julho |
| Salvador | Aliança Francesa, no seminário Cinefuturo | 25 a 31 de julho |
| Recife | Fundação Joaquim Nabuco | 10 a 21 de agosto |
| Brasília | Espaço Le Corbusier (Embaixada da França) | 29 de agosto a 6 de setembro |
| Goiânia | Cine Goiânia Ouro | 28 de setembro a 5 de outubro |
Fonte: página "Datas e lugares" da mostra, captura de 22 de junho de 2011 (Wayback Machine)
Há detalhes saborosos nessa agenda. Em Porto Alegre, a sessão de Sem Teto Nem Lei de 28 de junho seria comentada em francês, numa parceria com a Aliança Francesa local. Em Salvador, a mostra entrou na programação de um seminário internacional de cinema. E o circuito escolhido — IMS, CineSESC, Fundação Joaquim Nabuco, Cine Humberto Mauro — é um retrato fiel da rede de salas culturais brasileiras de 2011, várias delas ativas até hoje.
Além das salas: Forte do Leme e a mesa-redonda
A edição de 2011 também saiu do cinema. O release oficial documenta sessões ao ar livre no Forte do Leme, no Rio de Janeiro, no sábado 11 de junho, com uma dobradinha simbólica: Um Gato em Paris, a animação inédita da seleção, e Orfeu Negro — o filme de Marcel Camus rodado no Rio, Palma de Ouro em 1959 e talvez o elo mais famoso entre o cinema francês e o Brasil. Projetar justamente esse filme de frente para o morro carioca era um comentário em forma de programação.
Para o público profissional, o festival organizou em 10 de junho, no hotel Sofitel de Copacabana, uma mesa-redonda sobre cinema digital e diversidade cultural, reunindo representantes da Unifrance, do CNC (o centro nacional de cinema francês) e do site AlloCiné, segundo o mesmo release. O tema não era abstrato: a transição digital que viabilizava as 22 cidades simultâneas estava, naquele momento, redesenhando a distribuição de cinema no mundo inteiro.
Quem fez a edição de 2011
O desenho institucional está no release arquivado. A realização era da Unifrance, o organismo de promoção do cinema francês no exterior, com produção da Bonfilm. O patrocínio principal vinha da Essilor-Varilux — fabricante das lentes progressivas que dão nome ao festival —, ao lado de Citroën e da Secretaria de Cultura do Governo do Rio de Janeiro; o copatrocínio somava Embaixada da França, Aliança Francesa, L'Oréal, Allianz Seguros, Tok&Stok, Sofitel e Ministério da Cultura. A projeção e a legendagem digitais ficavam com a Auwe Digital. É uma fotografia de como se financiava um festival de alcance nacional no Brasil de 2011: dinheiro de marca francesa, diplomacia cultural e poder público estadual e federal na mesma página de créditos.
O que veio depois — e o que este endereço guarda
A edição de 2011 foi a última a viver neste endereço. Para a edição seguinte — agosto de 2012, já com mais de 30 cidades —, o festival mudou-se para o domínio variluxcinefrances.com, e a home antiga passou a apontar para o site novo; a captura dessa página de despedida, preservada sob o diretório /2011/, ainda podia ser acessada no servidor original quase uma década depois. O festival seguiu crescendo: tornou-se o maior festival de cinema francês fora da França, com 180 mil espectadores em 2017, e em 2025 adotou o nome atual, Festival de Cinema Francês do Brasil, com site oficial em festivalcinefrances.com.br — é lá que saem datas, cidades e ingressos de cada edição.
A trajetória completa — das primeiras edições da Unifrance ao nome atual, passando pelos anos Varilux — está contada em nossa linha do tempo do festival (2008–2026); e o que se sabe sobre a próxima edição, com a janela provável de datas argumentada a partir do histórico, está no guia independente da edição de 2026. Este endereço, hoje casa da Sessão Francesa, guarda a memória do começo: é daqui que saíram os fatos desta página.
Onde ver hoje os filmes de 2011
E quem quiser rever a edição de 2011 do sofá? Quinze anos depois, parte daquela programação continua acessível no streaming brasileiro — com destaque, sem surpresa, para o catálogo da Reserva Imovision, plataforma da distribuidora que lançou vários daqueles títulos no país. A checagem abaixo cobre os filmes citados neste artigo; catálogos giram, então as situações valem para a data da verificação:
| Filme | Plataforma | Situação |
|---|---|---|
| Um Gato em Paris (2010) | Reserva Imovision | Disponível |
| Mulheres Diabólicas (1995) | Reserva Imovision | Disponível |
| Potiche: Esposa Troféu (2010) | — | Verificação pendente |
| Sem Teto Nem Lei (1985) | — | Verificação pendente |
Verificado em agosto de 2026
A lista completa das seleções de 2010 e 2011, título a título e com a disponibilidade atual de cada um, está em Os 20 filmes que abriram o festival. E para navegar o streaming francês no Brasil como um todo — plataforma por plataforma, inclusive as opções gratuitas —, o ponto de partida é o nosso mapa completo do streaming.
Fontes
Todas as afirmações históricas desta página vêm de capturas do site original do festival no Wayback Machine e do release oficial de 2011 arquivado no mesmo domínio:
- Home do festival, captura de 21/8/2011 — agradecimento ao público de mais de 45 mil espectadores.
- Página institucional, captura de 20/8/2011 — 22 cidades, 17 estados, 30 salas; histórico das edições.
- Release oficial da edição de 2011 (PDF) — datas, parceiros, Forte do Leme, mesa-redonda, projeção digital.
- Lista de filmes de 2011 e fichas individuais arquivadas — títulos, direção, elenco e convidados.
- Páginas da mostra Sandrine Bonnaire (capturas de junho de 2011) — filmes, formatos, datas e lugares da itinerância.
- Wikipédia: Festival de Cinema Francês do Brasil — crescimento posterior e mudança de nome em 2025.