Sessão Francesa.

O cinema francês, lido do Brasil.

Memória · 2008–2026

Do Varilux ao Festival de Cinema Francês do Brasil: a história completa (2008–2026)

De um circuito de nove capitais a 60 cidades e mais de 2 milhões de espectadores acumulados: a linha do tempo do maior festival de cinema francês fora da França — incluindo os anos em que ele morou neste endereço.

Publicado em 14 de agosto de 2026 · Sessão Francesa

Ilustração em guache de feixes de projetor formando uma constelação de pontos de luz sobre um mapa estilizado do Brasil, em tons de papel, vinho e ocre
De 9 a 60 cidades: o festival como uma constelação de projetores acesos sobre o mapa do Brasil.

Na noite de 21 de maio de 2010, o Wayback Machine fotografou este endereço pela primeira vez. A página, ainda em Arial sobre fundo cinza, anunciava pré-estreias de filmes franceses em nove cidades brasileiras: era o site do primeiro Festival Varilux de Cinema Francês. Dezesseis anos depois, o evento que nasceu ali é apresentado pela imprensa como o maior festival de cinema francês fora da França — e atende por outro nome.

Este artigo reconstrói essa trajetória inteira, das edições que a Unifrance realizava antes do patrocínio Varilux ao novo nome adotado em 2025, a partir do que os documentos permitem afirmar: as capturas do site original preservadas no Wayback Machine, o release oficial de 2011 que ficou esquecido no servidor por quase uma década, o verbete da Wikipédia e a cobertura da imprensa brasileira. Cada número tem fonte, e as fontes estão reunidas no fim da página.

Antes do nome: as edições da Unifrance (2008–2009)

A Wikipédia em português registra a criação do festival em 2008, por iniciativa da Unifrance — o organismo que promove o cinema francês no exterior — com apoio da Embaixada da França no Brasil e da rede de Alianças Francesas. A primeira edição, produzida pela Bonfilm, teria ocupado 11 salas em nove cidades e reunido cerca de 25 mil espectadores.

O próprio site de 2010 ajuda a datar essa pré-história. A página institucional capturada em junho de 2010 descrevia o evento daquele ano como o terceiro festival de cinema francês realizado pela Unifrance no Brasil — o que situa as duas edições anteriores em 2008 e 2009, ainda sem marca patrocinadora no nome. A mesma página registrava o tamanho do mercado que o festival queria ampliar: 771 mil ingressos vendidos para filmes franceses nos cinemas brasileiros em 2009, segundo levantamento da Filme B ali citado.

Uma curiosidade de numeração ajuda a entender o que veio depois. A contagem oficial das edições recomeça em 2010: a de 2020 foi anunciada como a 11ª, a de 2025 como a 16ª — e a conta só fecha se o ponto de partida for o primeiro ano sob a marca Varilux. As edições de 2008 e 2009 ficaram, na prática, como pré-história — reconhecidas na origem, ausentes da numeração.

2010: nasce o Festival Varilux — neste endereço

Em 2010, o patrocínio da Essilor — a multinacional francesa fabricante das lentes progressivas Varilux, que segundo a página institucional do site de 2010 já apoiava o cinema francês no Brasil havia cerca de sete anos — deu nome ao evento: Festival Varilux de Cinema Francês. E deu-lhe também um site próprio, registrado exatamente neste endereço, festivalcinefrances.com.

Segundo a captura de 21 de maio de 2010, a primeira do domínio, o formato já era o que definiria o festival dali em diante: pré-estreias simultâneas dos filmes franceses do ano. Foram dez títulos inéditos em nove capitais — Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Fortaleza, Porto Alegre, Recife e Salvador —, com delegação de artistas franceses presente no Rio e em São Paulo. As datas variavam por cidade: no Rio, de 3 a 10 de junho; em Fortaleza, de 2 a 7, conforme a página de programação arquivada. A realização era da Unifrance, com produção da Bonfilm.

O site em si era um retrato fiel de 2010: layout de largura fixa, navegação por botões de imagem, um slideshow de fotos em JPEG movido a MooTools no centro da home — e até um ícone do Delicious no rodapé. A página institucional arquivada em 2011 fecharia o balanço da edição de estreia: mais de 25 mil espectadores.

A seleção de 2010 — O Profeta, O Pequeno Nicolau, Oceanos, Coco Chanel & Igor Stravinsky e outros seis títulos — está reconstruída filme a filme, com a disponibilidade atual de streaming no Brasil, em Os 20 filmes que abriram o festival.

2011: 22 cidades, 17 estados, 30 salas

A segunda edição sob a marca Varilux foi o grande salto de escala. De 8 a 16 de junho de 2011, o festival aconteceu em 20 cidades ao mesmo tempo — e, somadas as etapas de Fortaleza (16 a 23 de junho) e Belo Horizonte (24 a 30 de junho), chegou a 22 cidades em 17 estados, ocupando 30 salas de cinema. O release oficial de 2011, um PDF de oito páginas que permaneceu no servidor e foi capturado pelo Wayback Machine em 2020, apresentava o evento como o primeiro festival de cinema no Brasil com aquele alcance simultâneo — viabilizado pela projeção e legendagem digitais da Auwe Digital, numa época em que boa parte do circuito ainda era 35 mm.

Foram outra vez dez filmes inéditos — entre eles Potiche, Vênus Negra, Um Gato em Paris e Copacabana —, sessões ao ar livre no Forte do Leme, no Rio, uma mesa-redonda profissional sobre cinema digital e diversidade cultural e uma retrospectiva de oito filmes de Sandrine Bonnaire em cópias de 35 mm, em sua maioria novas, que estreou no Instituto Moreira Salles, no Rio, e no CineSESC, em São Paulo, antes de viajar a mais seis capitais. O balanço publicado na própria home ao fim do evento: mais de 45 mil espectadores.

Essa é a edição que este endereço hospedou por mais tempo, e a mais bem documentada no arquivo. A Sessão Francesa dedica a ela duas reconstruções: a retrospectiva completa da edição de 2011 e a programação cidade por cidade, de Macaé a João Pessoa.

2012: a mudança de endereço

Para a edição de 2012 — 15 a 23 de agosto, em mais de 30 cidades —, o festival estreou um domínio novo, variluxcinefrances.com, que serviria de casa oficial pelos doze anos seguintes. Este endereço ganhou então uma página de despedida: um aviso apontando para o site novo, com o anúncio da edição de agosto e de uma novidade paralela, a 1ª Oficina Franco-Brasileira de Roteiros. Entre junho e outubro de 2012, a home passou a redirecionar automaticamente para o domínio novo — a captura de 8 de outubro de 2012 é a primeira a flagrar o redirecionamento.

Um detalhe que arquivistas apreciam: as páginas internas do site antigo continuaram no ar por quase uma década. Em outubro de 2020, o Wayback Machine ainda capturava, neste domínio, a home de despedida, as páginas de filmes e programação de 2011 e o release em PDF — oito anos depois de o festival ter se mudado. É dessa sobrevida silenciosa que vem boa parte das fontes desta seção de Memória.

O festival deixou o domínio por volta de 2021. Hoje o endereço abriga a Sessão Francesa, publicação independente que documenta nestas páginas a história que aconteceu aqui — enquanto o festival segue em cartaz com site oficial em festivalcinefrances.com.br.

2013–2019: até o título de maior do mundo

Na década seguinte, já no endereço novo, o festival cresceu edição a edição. Depois do desvio para agosto em 2012, o calendário voltou às pré-estreias de junho e assim seguiu até o fim da década — a 10ª edição, em 2019, ainda começou na primeira quinzena de junho (6 a 19), segundo o AdoroCinema. O formato permaneceu o mesmo desenhado em 2010: um pacote de filmes franceses recentes, muitos vindos diretamente de Cannes e Veneza, exibido simultaneamente em cidades de todas as regiões, com convidados franceses circulando pelas sessões.

O marco veio em 2017: 180 mil espectadores em uma única edição, número que, segundo a Wikipédia, valeu ao evento o título de maior festival de cinema francês do mundo — fora da França, como a imprensa costuma precisar. Em 2020, o acumulado desde a criação já passava de 1 milhão de espectadores e 35 mil sessões de cinema.

2020: a pandemia e o festival em casa

A pandemia tirou a edição de 2020 do seu lugar de sempre: a janela de junho foi adiada. A resposta imediata da organização foi o Festival Varilux em Casa: 50 filmes franceses de edições anteriores, liberados gratuitamente na plataforma brasileira Looke entre 27 de abril e 25 de agosto de 2020, mediante cadastro grátis — parceria com a plataforma registrada à época pela imprensa, da Exame a órgãos públicos de cultura.

A edição presencial acabou acontecendo no fim do ano: a 11ª, de 19 de novembro a 3 de dezembro de 2020, nos cinemas que reabriam aos poucos. O adiamento forçado deixou herança: é dessa mudança que vem a janela de novembro e dezembro em que as edições recentes — 2023, 2024, 2025 — se fixaram.

O Varilux em Casa foi também a primeira migração em bloco do acervo do festival para o streaming, e um ensaio do que virou rotina: hoje, boa parte dos títulos exibidos em edições passadas circula pelos catálogos brasileiros. O mapa completo dessas plataformas — do especialista Reserva Imovision às prateleiras francesas de Netflix e MUBI — está no guia Onde assistir filmes franceses no Brasil.

A retomada: 60 cidades e 110 salas em 2024

Firmado na nova estação, o festival seguiu com a expansão territorial que é sua marca registrada. A 15ª edição, de 7 a 20 de novembro de 2024, chegou a 60 cidades e 110 salas de cinema, com 19 filmes inéditos em cartaz, homenagem a Alain Delon — morto em agosto daquele ano — e atividades gratuitas no Rio e em São Paulo, incluindo obras em realidade virtual. A imprensa já o apresentava rotineiramente como o maior festival de cinema francês fora da França, com mais de 2 milhões de espectadores acumulados desde a criação.

Compare com o ponto de partida: em quinze edições, o circuito saiu de 9 para 60 cidades, e a marca de público de uma edição inteira de 2010 — 25 mil pessoas — virou fração de uma edição recente.

2025: o novo nome

Em 2025, depois de quinze edições como Festival Varilux, o evento passou a se chamar Festival de Cinema Francês do Brasil. Segundo os diretores, citados pela Rolling Stone Brasil, o novo nome reflete o principal diferencial do evento — o alcance nacional, simultâneo, de capitais a cidades de menor porte — e abre espaço para novos parceiros sustentarem o crescimento.

A 16ª edição, primeira sob o novo nome, aconteceu de 27 de novembro a 10 de dezembro de 2025, com 20 longas inéditos em 52 cidades — e sessões prorrogadas em algumas praças, caso de Ribeirão Preto, Florianópolis e, até 17 de dezembro, Niterói e Recife, segundo o Papo de Cinema. O homenageado do ano foi Pierre Richard, que apresentou um filme inédito e quatro clássicos de sua carreira, e a seleção trouxe destaques recentes de Cannes e Veneza, de François Ozon a Thierry Klifa. A nova fase tem site oficial em festivalcinefrances.com.br — um endereço irmão deste, agora com o .br que diz tudo.

2026: o que dá para saber hoje

As datas da edição de 2026 não haviam sido anunciadas até o fechamento deste artigo, em 14 de agosto de 2026. O histórico recente, porém, permite estimar a janela com razoável confiança: as últimas edições ocuparam o intervalo entre o início de novembro e meados de dezembro — 7 a 20 de novembro em 2024, 27 de novembro a 10 de dezembro em 2025. Quando o anúncio sair, ele sai no site oficial do festival.

A Sessão Francesa mantém um guia independente da edição de 2026 — janela provável, cidades e redes historicamente participantes, faixas de preço, como funcionam as sessões com debate — atualizado a cada novidade: Festival de Cinema Francês do Brasil 2026: o guia. E para quem quer chegar à próxima edição já íntimo do repertório, o caminho natural começa pela lista dos melhores filmes franceses de todos os tempos.


O festival em números

Escala do festival, edição a edição (dados documentados)
AnoAlcancePúblicoFonte
20089 cidades · 11 salas≈ 25 milWikipédia
20109 capitais25 mil+site arquivado (2011)
201122 cidades · 17 estados · 30 salas45 mil+site arquivado (2011)
2012mais de 30 cidadespágina de despedida arquivada
2017180 mil na ediçãoWikipédia
2020Varilux em Casa (Looke) + 11ª edição presencial em novembro1 milhão+ acumuladoWikipédia
202460 cidades · 110 salas · 19 filmes inéditos2 milhões+ acumuladosimprensa (Terra, Rota Cult)
202552 cidades · 20 filmes inéditosCorreio Braziliense

Os traços que a tabela não mostra são os que mais explicam a longevidade: o mesmo produtor desde o início (Bonfilm), a mesma âncora institucional (Unifrance e Embaixada da França) e o mesmo desenho de 2010 — filmes inéditos, exibição simultânea de norte a sul, convidados franceses nas salas. Mudaram o nome, o endereço na internet e a estação do ano; a fórmula, não.


Fontes