Sessão Francesa.

O cinema francês, lido do Brasil.

Memória · 2010–2011

Os 20 filmes que abriram o festival: as seleções de 2010 e 2011 — e onde vê-los hoje

As duas primeiras seleções do festival de cinema francês no Brasil, reconstituídas a partir do arquivo do site original — com a resposta que faltava: o que ainda dá para assistir em 2026.

Publicado em 14 de agosto de 2026 · Sessão Francesa

Ilustração em guache de uma gaveta de fichário de arquivo aberta, cheia de fichas de filmes, com uma ficha puxada até a metade, em tons de papel, vinho e dourado
Vinte fichas numa gaveta: dez filmes de 2010, dez de 2011. Ilustração: Sessão Francesa.

Na primeira semana de junho de 2010, nove capitais brasileiras exibiram ao mesmo tempo os mesmos dez filmes franceses inéditos. Era a primeira edição do Festival Varilux de Cinema Francês — e o site que anunciava tudo isso morava exatamente neste endereço, festivalcinefrances.com. A página de filmes, a velha filmes.php, listava os dez títulos em ordem alfabética, de 8 Vezes de Pé a Um Outro Caminho. Um ano depois, a lista inteira foi trocada: dez novos inéditos, agora em 22 cidades de 17 estados. Vinte filmes, portanto, abriram a história do evento que se tornaria o maior festival de cinema francês fora da França — a trajetória completa está contada na nossa linha do tempo do festival (2008–2026). Esta página reconstitui as duas seleções a partir das capturas do site original no Wayback Machine e responde à pergunta que interessa em 2026: o que dá para assistir hoje, do sofá, no Brasil?

De onde vêm estas listas

As duas seleções sobrevivem em capturas de arquivo. A lista de 2010 aparece na captura de 23 de maio de 2010 da página de filmes do site original; as fichas individuais, com direção, elenco, duração e até a classificação indicativa, foram preservadas no arquivo que o próprio festival montou em /2010/, capturado em abril de 2011. A lista de 2011 está na captura de 23 de agosto de 2011, dois meses depois do festival, e o release oficial daquela edição — um PDF de oito páginas — sobreviveu numa captura de outubro de 2020.

Os detalhes de cada filme abaixo vêm dessas fichas e de bases públicas. A disponibilidade em streaming foi verificada agora, em agosto de 2026, nos catálogos brasileiros (JustWatch Brasil e páginas das próprias plataformas). Catálogos giram sem aviso: trate cada "onde assistir" como um retrato do momento, com a data carimbada ao lado.


A seleção de 2010: nove cidades, dez inéditos

A edição de estreia levou mais de 25 mil espectadores aos cinemas de nove capitais, com o Rio de Janeiro em cartaz de 3 a 10 de junho, segundo o balanço arquivado no site do festival. A grade equilibrava o consagrado e o arriscado: o filme mais premiado da França naquele ano dividia espaço com Bruno Dumont e com comédias que nunca mais voltariam a circular por aqui.

O Profeta

A joia da coroa da primeira edição. O filme de prisão de Jacques Audiard chegava ao Brasil precedido do Grande Prêmio de Cannes de 2009 e de nove prêmios César em 2010 — melhor filme, direção e ator para Tahar Rahim entre eles, como a ficha do festival fazia questão de lembrar. Malik, 19 anos, analfabeto, entra sozinho numa prisão dominada por facções e aprende ali, missão a missão, o ofício do poder. Dos vinte filmes desta página, é o que envelheceu com mais autoridade — e um dos poucos que seguem acessíveis, ainda que só em aluguel.

O Pequeno Nicolau

Laurent Tirard levou às telas o clássico infantil de Goscinny e Sempé: o menino Nicolau, convencido de que os pais vão trocá-lo por um irmão recém-nascido, monta com a turma um plano de sobrevivência. Com Kad Merad e Valérie Lemercier no elenco adulto, foi a aposta de plateia familiar da edição — e Tirard veio ao Brasil apresentar as sessões de São Paulo e do Rio, segundo a ficha arquivada. Hoje é um dos quatro sobreviventes nos catálogos brasileiros.

Oceanos

O documentário-espetáculo de Jacques Perrin e Jacques Cluzaud — quatro anos de filmagens em mais de cinquenta locações, dos atuns em caçada ao grande tubarão-branco, segundo a ficha original do festival. Era o filme de sessão livre da edição, pensado para levar famílias inteiras ao cinema, e Cluzaud acompanhou as exibições de São Paulo e do Rio. Por ironia, o filme mais "de tela grande" da seleção está hoje fora de todos os catálogos brasileiros.

Coco Chanel & Igor Stravinsky

Jan Kounen filmou o encontro entre a estilista e o compositor na Paris de 1913, com Anna Mouglalis e Mads Mikkelsen — o mesmo filme que havia encerrado o Festival de Cannes de 2009. Kounen e Mouglalis vieram ao Brasil para as sessões de São Paulo e do Rio, uma das presenças mais celebradas da primeira edição. Está fora de catálogo no país: a base brasileira registra o título, sem nenhuma oferta ativa.

O Refúgio

O primeiro dos dois François Ozon consecutivos do festival — em 2011 ele voltaria à seleção com Potiche. Aqui, um drama em surdina: Mousse perde o companheiro para uma overdose, descobre a gravidez e foge para uma casa isolada, onde o irmão dele a encontra. A crítica do L'Humanité citada na ficha do festival falava em "simplicidade da grande arte". Fora de catálogo no Brasil desde então.

O Dia da Saia

Isabelle Adjani como uma professora no limite que, num gesto desesperado, faz os próprios alunos de reféns. O papel devolveu Adjani ao centro do cinema francês e lhe rendeu o César de melhor atriz de 2010 — o quinto da carreira, um recorde. No Brasil, o filme praticamente só existiu dentro do festival: circulou nas nove cidades de 2010 e sumiu dos catálogos.

Faça-me Feliz

Comédia de enganos de Emmanuel Mouret: para salvar o casamento, uma mulher empurra o marido para um caso — e a "amante recomendada" acaba sendo a filha do presidente da República. Frédérique Bel, do elenco, veio ao Brasil apresentar as sessões. É o tipo de comédia média francesa que os festivais fazem circular e o mercado, depois, esquece: sem oferta digital no país.

8 Vezes de Pé

Xabi Molia estreava na direção com esta crônica de dois vizinhos — Julie Gayet e Denis Podalydès — colecionando entrevistas de emprego fracassadas e recomeços. O título vem do provérbio japonês citado na própria ficha do festival: cair sete vezes, levantar oito. Passou pelas nove cidades de 2010 e está hoje fora do circuito digital brasileiro.

Hadewijch

A escolha mais radical de 2010: Bruno Dumont acompanhando uma noviça de fé incandescente, expulsa do convento e lançada de volta a Paris, entre a graça e o abismo. Dumont e a estreante Julie Sokolowski vieram ao Brasil — sinal de que o festival, já na primeira edição, queria provar que uma mostra de inéditos também é lugar de cinema difícil. Hoje o filme sequer consta nas bases brasileiras de streaming.

Um Novo Caminho

Uma curiosidade de arquivo: na captura de maio de 2010 da lista de filmes, o título aparece como Um Outro Caminho; no arquivo que o festival montou depois, como Um Novo Caminho. É Le dernier pour la route, de Philippe Godeau, com François Cluzet no papel de um dono de agência de notícias em luta contra o alcoolismo — o mesmo Cluzet que, um ano depois, viraria rosto conhecido do público brasileiro com Intocáveis. Fora de catálogo no país.


A seleção de 2011: 22 cidades, dez inéditos

Na segunda edição, o festival saltou de 9 para 22 cidades — de Macaé a João Pessoa — e de 25 mil para mais de 45 mil espectadores, segundo o agradecimento publicado na página inicial após o encerramento. A programação daquele ano, cidade por cidade, está reconstituída em página própria; a retrospectiva paralela de Sandrine Bonnaire e tudo o mais que a edição trouxe estão no nosso retrato completo de 2011. Aqui, os dez inéditos da mostra principal.

Potiche: Esposa Troféu

O carro-chefe de 2011. Na comédia pop de François Ozon, ambientada em 1977, Catherine Deneuve é a esposa-troféu que assume a fábrica de guarda-chuvas do marido e se revela líder nata. A ficha capturada em junho de 2011 anunciava Deneuve em letras garrafais como "convidada do festival" e registrava a Imovision como distribuidora brasileira. Quinze anos depois, o filme está fora dos catálogos do país.

Vênus Negra

O filme mais duro das duas seleções. Abdellatif Kechiche reconstitui a história real de Saartjie Baartman, a mulher sul-africana exibida como atração de feira na Europa do início do século XIX — um libelo sobre racismo e espetáculo que havia competido no Festival de Veneza de 2010. Que um festival "de vitrine" tenha programado um filme assim diz muito sobre a ambição da edição. Sem oferta digital no Brasil hoje.

Um Gato em Paris

A animação artesanal de Alain Gagnol e Jean-Loup Felicioli — um gato que de dia é bicho de estimação de uma menina e de noite parceiro de um ladrão de telhados — teve em 2011 o papel mais simpático da edição: segundo o release oficial, foi exibida de graça, ao ar livre, no Forte do Leme, no Rio. Meses depois seria indicada ao Oscar de melhor animação. É hoje um dos quatro sobreviventes: está no catálogo da Reserva Imovision, o streaming da própria distribuidora especializada em cinema francês.

Uma Doce Mentira

Pierre Salvadori dirige Audrey Tautou nesta comédia de cartas anônimas e paixões redirecionadas — em 2011, Tautou ainda era o rosto mais reconhecível do cinema francês para o público brasileiro, dez anos depois de Amélie Poulain. O filme circulou pelas 22 cidades e depois desapareceu do circuito digital: a base brasileira registra o título, sem ofertas.

Os Nomes do Amor

Comédia romântica com espinha política: Michel Leclerc junta uma militante que "converte" conservadores pela cama e um funcionário público avesso a qualquer risco. O papel deu a Sara Forestier o César de melhor atriz de 2011, meses antes de o filme chegar ao festival brasileiro. Fora de catálogo no país.

Copacabana

Sim, um filme chamado Copacabana num festival brasileiro — mas a praia aqui é sonho distante: Isabelle Huppert, em raro registro escancaradamente cômico, é Babou, uma mãe desajustada que aceita vender apartamentos de temporada na fria Ostende, na Bélgica, para reconquistar o respeito da filha, vivida por sua filha real, Lolita Chammah. Marc Fitoussi dirige. Sem oferta digital no Brasil hoje.

Xeque Mate

Na estreia de Caroline Bottaro, uma camareira corsa descobre o xadrez e, com ele, um tabuleiro de possibilidades que a vida lhe negava — Kevin Kline faz o professor improvável. No papel principal, Sandrine Bonnaire: a mesma atriz que a edição de 2011 homenageava com uma retrospectiva de oito filmes em cópias novas de 35 mm. Ver os dois programas lado a lado era ver a atriz aos 20 e aos 40 anos na mesma semana. Fora de catálogo no Brasil.

Simon Werner Desapareceu

O mistério adolescente de Fabrice Gobert — um aluno some, e a mesma semana é recontada do ponto de vista de colegas diferentes — chegou a 2011 com uma assinatura sonora de peso: trilha original da banda nova-iorquina Sonic Youth. Era o filme "jovem" da seleção e é hoje um dos mais invisíveis: sem registro nas bases brasileiras de streaming.

Lobo

A aventura de Nicolas Vanier na Sibéria — um jovem pastor de renas que desafia a tradição do próprio povo ao proteger uma ninhada de lobos — era o programa familiar de 2011, filmado em paisagens de tirar o fôlego. Destino curioso: é hoje o mais acessível dos vinte filmes, disponível de graça, com anúncios, no Pluto TV, sob o título Loup – Uma Amizade Para Sempre.

O Pai dos Meus Filhos

O drama de Mia Hansen-Løve sobre um produtor de cinema carismático cuja empresa afunda em dívidas — premiado na mostra Un Certain Regard de Cannes em 2009 — fechava a seleção com sua aposta de autor. Em 2011, Hansen-Løve era uma jovem diretora em ascensão; hoje é presença constante nos grandes festivais, o que torna mais notável a ausência do filme nos catálogos brasileiros: a base local o registra (como "O Pai das Minhas Filhas"), sem nenhuma oferta ativa.


Onde assistir os 20 hoje: a tabela completa

O placar é magro e vale registrar com precisão: dos 20 filmes que abriram o festival, três têm streaming por assinatura ou gratuito, um está disponível para aluguel e 16 estão fora dos catálogos brasileiros. A verificação foi feita título a título nas bases e plataformas brasileiras; "fora de catálogo" significa que o filme consta nas bases, sem oferta ativa, e "sem registro" significa que o título sequer aparece nelas.

As seleções de 2010 e 2011, filme a filme
FilmeEdiçãoSituação no Brasil
O Pequeno Nicolau2010Canal Diamond Films (Prime Video)
Um Gato em Paris2011Reserva Imovision (canal no Prime Video)
Lobo2011Pluto TV — de graça, com anúncios
O Profeta2010Aluguel: Amazon Video, Apple TV, Claro video
Coco Chanel & Igor Stravinsky2010Fora de catálogo
Oceanos2010Fora de catálogo
O Refúgio2010Fora de catálogo
O Dia da Saia2010Sem registro nas bases
Faça-me Feliz2010Sem registro nas bases
8 Vezes de Pé2010Sem registro nas bases
Hadewijch2010Sem registro nas bases
Um Novo Caminho2010Sem registro nas bases
Potiche: Esposa Troféu2011Fora de catálogo
Vênus Negra2011Sem registro nas bases
Uma Doce Mentira2011Fora de catálogo
Os Nomes do Amor2011Fora de catálogo
Copacabana2011Sem registro nas bases
Xeque Mate2011Fora de catálogo
Simon Werner Desapareceu2011Sem registro nas bases
O Pai dos Meus Filhos2011Fora de catálogo

Verificado em agosto de 2026

Catálogos giram: um título "fora de catálogo" pode reaparecer amanhã no MUBI, na Reserva Imovision ou num canal do Prime Video. Para acompanhar o que o streaming brasileiro oferece de cinema francês agora, plataforma por plataforma, o caminho é o nosso mapa completo do streaming.

O que vinte filmes dizem sobre quinze anos

Quatro em vinte. A conta explica, melhor do que qualquer argumento, por que festivais de cinema seguem existindo na era do streaming: a maior parte do que passa numa mostra de inéditos tem ali sua única janela brasileira de tela grande — e, como estas listas mostram, às vezes sua única janela, ponto. Quem viu Hadewijch em Salvador ou Copacabana em Curitiba em junho de 2011 viu algo que, quinze anos depois, segue indisponível no país por qualquer meio doméstico.

As duas seleções também contam a história de um método que o festival mantém até hoje: filmes recém-saídos de Cannes e Veneza, um ou dois nomes de peso como isca (Deneuve em 2011), animação e aventura para as famílias, e espaço deliberado para o cinema difícil. A fórmula nasceu nestas vinte fichas e escalou — de 9 para 22 cidades entre 2010 e 2011, e daí para as dezenas de cidades das edições atuais, história que contamos na linha do tempo completa do festival. O evento segue em atividade como Festival de Cinema Francês do Brasil, com programação e ingressos no site oficial, festivalcinefrances.com.br; e para descobrir o que o cinema francês tem de melhor disponível agora, dos clássicos ao contemporâneo, há a nossa lista de 30 filmes essenciais comentados.


Fontes